sexta-feira, 5 de novembro de 2010

do amor, ainda me resta o café

"Nada nunca dá certo de vez
tudo termina sempre acabando
só o fim permanece
o fim eterno de todas as coisas
então eu me dissolvo antes do fim
eu me dissolvo."
Camila Lopes



Acho que vou me nutrir assim - chega de álcool - só de café. Vou me nutrir inteira deste prazer que agora me dói e não satisfaz, nem me deixa acordada. Bebo o café como se bebesse a mim mesma - como se bebesse você. Antes eu não dormia pela simples falta do teu cheiro de café ao lado, agora não durmo por não saber o que fazer com o que sinto. Me ocupo todo o dia, me preocupo com coisas que julgam importantes, me embriago eou me drogo, mecanicamente esqueço do que quero e sou, tudo pra te manter longe. E conservo sempre alguém por perto, que converse sobre coisas desinteressantes e impeça que a minha cabeça distraída pense em você querendo não querer. Alguém que não tenha suas mãos pequenas ou o teu sotaque de lugar nenhum; qualquer pessoa que não ouse deixar escapar pequenos sorrisos enquanto me beija a boca e que não dê suspiros profundos ao me abraçar. Abraço maldito. Que me faz desejar me livrar de tudo o que tenha acontecido ou não, do que eu tenha dito ou pensado, escrito ou sentido. Crio ocupações insignificantes como andar até grandes avenidas para olhar as pessoas passando ou assistir certa peça ou filme que não-lembro-quem me indicou. Tudo só pra que eu me desvie da tua voz chorosa no telefone em plena madrugada, do meu desespero por estar completamente perdida, por nunca ter pensado que nada disso iria acontecer. E lá se foi a inocência que me restava e que eu julgava já não ter. O que me sobra é só essa cidade cheia de rostos adornados que eu não reconheço e o meu corpo dolorido levantando involuntariamente da cama para mais um banho frio seguido de outro café. O que foi que fizemos? Por que não evitamos e hesitamos assim? Quando me diagnosticaram autodestruitiva eu fiz jus ao meu ceticismo e desacreditei. Burra. A verdade é que comigo as coisas precisam ir sempre mal para que eu possa explicar essa vida tão frívola. Não suportaria perceber o quanto, na teoria, tudo pode estar indo completamente bem, enquanto eu continuo afundada em merda por escolha própria - você sabe. Quando algo possui qualquer possibilidade de dar certo, eu destruo e implodo. Então sou só eu e o rosto bêbado sendo apertado contra o lençol, cabeça rodopiante que continua tentando não lembrar das tuas pinturas que admiro, da tua escrita que me fere em emoção. Mas não há raiva, meu amor, nunca haverá. Talvez o amor se dilua, mas ele nunca pode se transformar em outro sentimento - não há cartas para rasgar ou fotos para queimar, só há você dentro de mim intocável e abafada. Assim, eu vou embora apenas por ser incapaz de te ver partir, sufocando tudo o que eu guardei para você e que não pode ser de mais ninguém. Mas ainda me resta o café, com o cheiro aconchegante que infesta a casa e, inoportunamente, continua me lembrando você enquanto o gosto amargo não me deixa esquecer que...acabou.

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