sábado, 18 de junho de 2011

Confesso que demorei pra perceber que não era só eu – vocês fingem bem. E comem e bebem e riem e falam e cantam e gritam fingindo estar tudo bem. Fingindo que não há em vocês este aperto no peito que eu não sei esconder. Se trata basicamente disso, é preciso saber mentir melhor. E não digo mentir para os outros - isto seria prepotente demais - o mais importante antes de tudo é enganar a si mesmo, esconder os sentimentos do próprio coração, conflito ingrato. Disto criam-se problemas: depressão, psicose, distúrbios, pânico; e as soluções: remédios, terapias e alienação. Mas toda essa pseudo sabedoria adornada não sabe responder o real motivo para tanto fingimento. Eu fico me perguntando quanto tempo vão demorar para admitirem (porque saber, já sabem) que o problema não é esse, que não se pode ir empilhando máscaras sobre máscaras para sempre. Seus problemas não são familiares, não são amorosos, não são sobre relacionamentos ou sobre saúde. O real problema tá nessa vida mesquinha e sem sentido, você vê? Enquanto isso não mudar todo o resto vai caminhar pra se manter sempre igual: uma merda.
F

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Bom dia

"Eu amei...
mas é melhor não mexer nisso.
Gosta-se, afinal, da própria dor."
A Esperança - Mayakóvski


Eu vou ficar com essa sensação de quem vai chorar a qualquer hora por mais um tempo, sem conseguir ouvir certas músicas, passar em certos lugares e ter certas lembranças que me remeteriam àqueles bons momentos contigo dos quais me afasto mais a cada segundo. Vou desfazer todos as propostas de relacionamentos e dar um pé na bunda de todo mundo para reaprender a estar sozinha e me lembrar de que na verdade a solidão nunca foi ruim. Não vou querer ver ninguém, ter ninguém, tocar ninguém pra continuar mantendo tua última carícia na minha pele ainda intacta. Mas não vou me desesperar, nem vou desperdiçar os meus dias de moletom na cama vendo filmes de comédia romântica e comendo porcaria. Pelo contrário. Essa jamais seria eu. Vou sim limpar todo o meu apartamento e me livrar de qualquer coisa que me lembre você; provavelmente guardarei bem escondido algo que me fosse mais significante para a fase do já-te-superei, em que eu poderei falar das lembranças boas olhando pra uma foto tua na estante sem que isso me desperte nenhuma dor. Depois também vou cortar o cabelo, começar alguma atividade diferente: natação, luta, ou alguma dança porque yoga é clichê demais. Vou estudar e trabalhar como nunca para manter a cabeça sempre ocupada; arrumar novos objetivos pessoais e alcançá-los. Também vou ao médico, ao nutricionista, fazer exame de sangue pra ficar provando a mim mesma que está tudo bem. TUDO BEM. Depois de um tempo já nem vou mais ficar parada ao lado do telefone esperando que você ligue e diga "vem". Nem vou mais te esperar fumando um cigarro porque tudo acontece quando a gente fuma um cigarro: o ônibus chega, a fila anda, o telefone toca com a sua voz do outro lado dizendo "estou indo" entre algumas outras palavras das tuas gírias particulares. Não colocarei mais a culpa na sorte. Depois desse tempo eu vou começar a aceitar os convites, ir em festas, shows, beber bastante como de costume; com a maia-calça arregaçando no piso do banheiro imundo, o joelho arroxeando com hematomas que só serão descobertos dias depois, um braço apoiado na privada enquanto enfiarei os meu dedos na garganta, com o vômito jorrando tão rápido que sujará meus anéis de bijouteria barata; a unha comprida vai ferir a minha goela e vomitarei tão ininterruptamente que mal terei tempo para respirar. Então eu chorarei, e só por isso chorarei, porque já não haverá tanta dor em toda essa situação. O choro será negro porque junto com o suor escorrerá toda a maquiagem escura que eu terei pintado como forma de proteção; o aroma do perfume francês que ganhei da minha mãe será substituído pelo cheiro de vômito e mijo velho, cheiro esse que eu sequer sentirei por ter as narinas tapadas por sangue e restos de cocaína. E então as ressacas. E então os dias acordando me dizendo que você não merece isso. E então viriam as pessoas...muitas delas, de vários tipos, sexos e gostos. E as levarei para casa na cama em que dormíamos e jurávamos amor eterno; e elas até brincarão com os meus gatos, talvez eu sorria. E lembrarei de como o sexo com você era bom em alguma foda mal dada assim como te esquecerei completamente em momentos contrários. Talvez já não me doa perceber que aqueles beijos não são os teus beijos. Mas é provável que eu me canse disso; daí vou reclamar do quanto as pessoas são vazias, do quanto elas não tem nada a me oferecer, da efemeridade dos abraços gelados que conhecemos bem. Vou decidir parar com isso e voltar pra boa e velha solidão, mas vou mudar de idéia sempre que o telefone tocar numa sexta à noite e alguém tiver uma proposta no mínimo interessante. Até que no meio desse monte de pessoas vai aparecer alguém com um pouco menos de palidez. Vamos falar sobre coisas em comum, vamos nos ver com mais freqüência; aí eu vou até conseguir falar de você, contar a nossa história dramática, melancólica e um pouco nostalgicamente na mesa de algum bar da augusta às 2 a.m. Ela vai te chamar de louca. Como pôde me deixar assim? Vai dizer que você foi estúpida e eu vou concordar mesmo sabendo que não é tão simples assim. Talvez até te xingue. E aos poucos quem sabe esta pessoa vá me ajudando com os buracos que você deixou quando saiu. E as mão dela vão me fazer não pensar nas tuas, e a voz dela vai me fazer não mais imaginar a tua me dizendo qualquer coisa quando o silêncio é completo; talvez não dure muito, ou pode ser que dure, tanto faz. E assim quem sabe da próxima vez em que te encontrar eu não grite, não chore, não te implore pra voltar pra mim. Talvez eu nem me machuque mais. E aí não sentirei mais nada e poderei apenas sorrir e dizer apáticamente oi quanto tempo como vai a vida você está bonita já estou indo tchau. E aí você já vai ter se tornado uma pessoa qualquer, bem longe do pedestal. Talvez tudo isso aconteça mesmo. Bem diferente do que imaginávamos, não? Bem diferente daquele nosso pra sempre.