quinta-feira, 13 de maio de 2010

mas os pássaros migram pro sul no inverno...

Para ler todos os dias antes do café:


Apertei meu corpo na cama, desengasgando o abraço que não te dei. Era uma agonia como estar andando na rua e do nada sentir vontade de escrever sem ter papel nem caneta. Andar na rua, sentir vontade de te abraçar sem te ver. Os meus olhos mal acompanhavam a velocidade branca-prata-preta nas avenidas, os faróis vermelhos que continuavam piscando sobre o preto das minhas pálpebras quando fechava os olhos me lembram o som do teu coração durante a noite, enquanto eu brigava com o sono pra poder te ouvir. Mas eu já andava levada pela brisa preguiçosa do começo da tarde, te procurando entre os rostos curiosos e intimidadores que escorriam enquanto passavam por mim. Eu não podia os ver sorrindo por dentro como via você. E não era nada espantoso; não me impressionava que eu não conseguisse sentir muita coisa com qualquer pessoa depois de ter sentido tudo aquilo contigo. Meu rosto dizia exatamente o que o lábio calava. E eu piscava os olhos rápido temendo alguma vez abri-los em um momento anterior, talvez enquanto você dava um daqueles sorrisos espontâneos que eu esperei surgir em tantas outras pessoas - mas que nunca vieram. O problema, na verdade, estava no meu medo sendo afagado pela distorcida recém-adiquirida capacidade de tentar mudar a realidade de que o meu único bom relacionamento era com a Sra. Stolichnaya.

sábado, 8 de maio de 2010

Positividade é para os fracos

Voa em mim

Enfiaram uma rolha de vinho barato na minha última válvula de escape, outra vez.  Não vou mais comer, nem beber. Quero sentir fome e sede. Vou enfiar a cara no forno aceso pq quero sentir queimar. Quero sentir qualquer coisa, qualquer coisa menos isso.
Somos todos cretinos sim, Bukowski. É a cretinice que nos faz pensar demais e desejar apenas a companhia das palavras e de um álcool qualquer. Eu não te quero, dia ensolarado – deixe-me aqui com meu blusão. E, assim como o passaro azul no seu coração, hoje eu sei que também tem um pássaro preso dentro de mim.
Não sei quando ele chegou, se é que chegou ou que sempre esteve aqui. Não sei se o colocaram aqui dentro enquanto eu estava sóbria de menos pra perceber, ou ocupada de mais pra me importar. Mas isso explica as pontadas agudas no peito antes de dormir, e muitas ao acordar. Era o bico fino me comendo por dentro, eram as asas úmidas e fracas agonizando pra sair, e o meu silêncio não passava do canto rouco do pássaro frágil que ninguém nunca conseguiu ouvir. O meu apreço pela solidão nunca foi mais do que a certeza de que, na realidade, eu já estava acompanhada. E no meu coração não há aço nem asfalto, como sua temperatura fazia parecer, ele foi predado pela fome e o ódio de um pássaro trancafiado – por isso eu o sentia doer.
Ele voa em mim, porque sou só espaço vazio, e vence a gravidade do meu corpo até se trombar com os meus limites, decepcionado. Tem olhos grandes o suficiente para conseguir enxergar no escuro que eu sou. As vezes se move durante horas, dias, se esforça até perder a última pena pra voar pra longe da minha pele em forma de grades. Vive tomado pelo cansaço de quem resiste em vão, mas não perde a beleza triste; não cala o canto gritado quase em forma de grunhido, não deixa de me lembrar que está ali – comigo, em mim. Certas vezes encosta a cabeça no meu ventre, exausto, com o corpo magricelo em farrapos; então dorme abraçado às minhas entranhas pedindo desculpas pela bagunça que me faz.
Tem um pássaro preso dentro de mim, e eu sou uma jaula, encadeada por tudo o que não me permite simplesmente fugir.

M.M.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

lembranças que não me reconhecem mais

Os pés que chegavam da rua marcaram o chão com pegadas molhadas, sobre elas e a poeira de costume, deitavam-se as roupas jogadas às pressas pelo chão. Haviam gritos, também. Gritos roucos e desafinados disputavam em altura e exaltação. Como árida trilha sonora o som de duas televisões ligadas em canais diferentes e de algum jogo de computador. No fundo de tudo, tentando sobrepor-se à toda sinfonia barulhenta, havia uma torrencial e passageira chuva de verão.
A situação era tão aterrorizante quanto o contexto, as palavras ditas tão enfurecidas e perfurantes quanto os olhos do garoto propaganda na TV. Não houveram tapas, já não podiam mais, seria uma bela disputa de forças como Spartacus e seu adversário numa arena, sem intervenções até que um caísse sobre a areia quente, morto de ódio e humilhação. Os motivos já não precisavam ser questionados; ninguém estava certo, ninguém iria ceder.
As palavras afiadas arranharam a garganta antes de saírem, esta estava seca e dolorida – os cigarros também ajudaram. Era o que restava das brigas em que só haviam derrotados: o olhar fulminante que desejava passageiramente uma vingança que nunca viria; porque, na verdade, o ódio também nunca veio. Mas haviam limites e nenhum de nós negava saber disso. Um dia alguém disse que as pessoas deveriam viver juntas e se respeitarem enquanto umas mandavam nas outras; todos aceitaram isto e nós estavamos sentindo o quanto não dava certo. Algumas pessoas simplesmente não se adaptam a todo este fingimento, e eu era assim. Talvez não amasse, mas também não odiaria; desde que me deixassem ficar em silêncio sem me perguntarem o porquê.
Parece fácil assim, quando eu digo; mas não é. As pessoas precisavam dar ordens e demonstrar o quanto eu era dependente delas ainda que soubessem o quão isto não era verdade. Mas as verdades não eram o mais importante agora; as mentiras que eram repetidas todas as vezes acabavam me parecendo mais sinceras, me convenci de que o problema era comigo e decidir ir, e passar o resto da existência sempre indo o mais longe que puder.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Tiago Ribeiro

"Parece-me agora, tanto tempo depois,
que as partidas-dolorosas, as amargas separações,
as perdas-irreparáveis costumam lavrar assim o rosto dos que ficam."
O Marinheiro, Triângulo das Águas - Caio Fernando Abreu

Formava-se, antes de tudo, um voluptuoso nódulo nos corpos estáticos. No cerne das vísceras engrandecia-se como um verme, enegrecia-se. E as angústias apressadas migravam nas veias sujas, até chegarem na parte em questão. Incomodava por dias e noites, nos impedindo de dormir. Antes não; antes havia sido apenas uma parte do corpo que não clamava por tantos cuidados; mas que era indispensável ao, apesar de tudo, funcionamento de cada um.
Agora, então, era uma bola de sensações inoportunas, redondas e orgânicas como tinham que ser. Não havia nenhuma sofisticação naquelas sensações animalescas que vinham como visitas apenas na hora de partir. E partiam. O nódulo crescia até não caber mais no espaço que o envolvia; como um embrião sugava as forças dos últimos suspiros de desespero, apatia incrédula e fina dor. Fina, no meio do peito como aquelas que tentam decidir entre um nunca mais e um até logo. E até logo, pequeno pedaço arrancado de todos nós. Significativamente éramos fagocitados aos poucos pela falta de sentido dessa vida faminta, louca para devorar aqueles que a desafiam. Você nos come aos poucos, vida; aos pedaços. E dessa vez só restou o instrumento deitado ao canto, esperando pelo sopro agora menos denso que o ar. E uma câmera ligada caída no chão, gravando os passos moribundos dos que a vida ainda há de devorar. Mas te comemos também, breve existência, e te comemos sorrindo e brindando a nós mesmos, aos nossos pedaços. Porque se você nos quer por inteiros, só te queremos para alguma satisfação.

Saiu assim, antes do choro.
Mariana Morena

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Em lugar de um poema

"Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor para mim não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.”
Lílichka, Em lugar de uma carta – Maiakovski


Você vai me dizer que não. Que já tem um beijo o qual não trocaria por nada, e já achou colo quente o suficiente para os teus arrepios no meio da noite. Teu pé gelado não vai se contorcer sozinho no lençol. Você vai até me falar sobre as mágoas, sobre ser assim mesmo. E eu sem te olhar porque não posso. Eu vou sorrir; continuar tão calada como sempre - até te desejar boa sorte. Pra te convencer de que comigo está tudo bem, pra me convencer também. E aí vou fingir que os meus sonhos de largar tudo só pra saber que você está por perto nunca existiram, vou esconder dentro de mim mais um sentimento como uma flor em um vaso. E caminharei em passos lentos, observando a sua imagem projetada na janela molhada pela chuva, assim como te via por detrás dos meus olhos cheios de lágrimas. Lágrimas que eu escondia dos teus sorrisos encantadores e que cessavam imediatamente à iminência de qualquer gesto teu que pudesse me encher de esperança fajuta, ilusão.
Então, eu tentaria me livrar desse sentimento me dizendo que te querer foi só uma vaidade, porque eu nem gostava da forma como você entendia tudo o que eu tinha pra dizer antes mesmo que eu dissesse; ou de como você sabia o quanto eu te amava mesmo sem eu nunca ter dito. Também não gostava de quando você me abraçava com aquela delicadeza que eu nunca vi em mais ninguém. Tudo pra tentar te apagar em mim – inútil. Este amor, platonicamente, não se iria. Como um infarto no coração, seria uma parte morta; incapacitada de pulsar por si mesma, mas que continuaria ali - em mim. 
Eu iria ficar sem saber o que fazer com tudo o que tinha guardado pra você, transbordando. Decidiria nunca mais querer ninguém: fria, fechada, forte. Aí passaria alguns dias buscando distração: livros velhos, filmes, talvez um pouco de jazz. E pode até ser que você pense nas palavras trocadas, na minha expressão de quem tentava não expressar nada; eu obviamente pensaria. Mas depois, tudo bem. A velha maneira de agir como se nada estivesse acontecido entraria em cena; nos encontraríamos e sorriríamos sem nem sarcasmo ou ironia. Mas quando estivéssemos outra vez olhando a praia da calçada como agora, sem nada para falar, então você sentiria a angústia entupida em mim e eu a ansiedade de um “por favor, continue em silêncio” em você. E eu ficaria em silêncio – sem dúvidas – pq então você teria dito que não e minhas chances estariam esgotadas. Eu deveria te escrever um poema, talvez. Mas não. Pq, mesmo antes de perguntar, eu sei que você vai dizer que não e eu estarei atada. Ainda assim, não sei pq:
- Você quer fugir comigo?
- Quero.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Desvairada

I
Não era possível entender como ela conseguia ser tão discreta e chamar tanta atenção. Era sempre mais do mesmo: um tênis sujo, uma calça velha e uma blusa escura. Toda de preto, os olhos maquiados e o cabelo descuidadosamente despenteado; invisível aos olhos sóbrios, talvez. No meio daquela escuridão seu rosto esbranquiçado reluzia e, porque não?, brilhava. Era a lua que tinha assumido forma de gente. Era a lua que lá no alto, cercada pelo negro céu, não se apagava. Era a lua: solitária, indecifrável, esburacada e cheia de luz.

II
Seu moço, uma bebida doce e quente, por gentileza. Para ver se essa noite meu pudor se esvai de vez. Poderia ser só mais um amanhecer no meu quarto, eu sei; e eu tentando fugir da claridade que insiste em se espremer pela cortina só para me atingir. Mas seu moço, me traz um copo d'água morna para eu tirar a minha vida pela boca, e pô-la para descansar.
Ela já não percebia o cheiro de mijo que vinha do lado esquerdo do bar, nem as risadas espalhafatosas que as pessoas, encorajadas pelo álcool, insistiam em dar. Não havia porque rir; ela sabia e os outros também. Todos com os seus assuntos urgentes e notícias importantes, e ela ali contando para o copo esvaziado pela boca ainda seca sobre as suas dores. Talvez até a olhassem, curiosos. Também não havia nada de impressionável ou encantador. Ela apenas contemplava todas as palavras que lhe subiam do peito, do útero, do estômago vazio e de algumas outras entranhas. Tudo, espremido em um sorriso direcionado a um gato que cruzava a rua; um sorriso que mal mostrava os dentes. Porque não era nada assim feliz ou alegre, porque não existia ninguém que pudesse ouvir o que talvez fosse.
Levantou-se com o mesmo sorriso bordado na cara, agora talvez um pouco mais enrugado. O garçom rudemente aceitou o dinheiro e só então reparou que as notas estavam amassadas ou enroladas como, para ela, era de se esperar. No caminho de volta pra casa tudo parecia tentar fazer parte dela, convidativamente. As luzes em neon colorido dos puteiros; as pessoas arrumadas que sorriem e bebem e fumam e sorriem; os homens e mulheres em carrões que buzinam em busca de companhia e/ou diversão. Infinitas possibilidades cordialmente recusadas com um “não, obrigada; já está suficientemente ruim assim”.

III
O viaduto parecia deitar-se sobre a avenida, grotesco e preguiçoso como se estivesse desde sempre ali. Ele era cortado por uma faixa de concreto em que era possível caminhar. Nos dias de domingo toda a avenida fechava para aos carros e passava a ser de uso dos pedestres. Ela fedia a fezes de mendigos e dela dava para ouvir o barulho de carros e caminhões embaixo. As pessoas caminhavam lentamente, cercadas por pressa; os prédios envolta estavam todos sujos pelo tempo. Todos estavam.
Uma cadela usando um vestido rosa tremia de medo de todo o espaço que tinha para andar. O ar podre ia entupindo os pulmões da geração-saúde-CO2-no-café-da-manhã. Ela teve uma imensa vontade de dizer-lhes que estavam todos mortos.
Permaneceu na avenida após ter rodado boa parte do centro daquela (atro)cidade; caminhava bem perto da marquise e olhava os carros passando por baixo. Lembrou-se da outra avenida em frente à praia, dos apartamentos um-por-andar, dos gringos vermelhos com sungas pequenas, os peitos musculosos balançando enquanto corriam. A maior semelhança, contudo, estava nas pessoas. Aonde que que elas estivessem, sempre tentavam agir da mesma forma, condicionadas e adestradas a um podre padrão.
E ela ali, e a marquise, e os automóveis na pista de baixo. Seria simples demais acabar com tudo dessa vez, como a louca suicida que ela não conseguia deixar de ser. Mas lembrou-se de uma ligação no meio da noite, de alguém que talvez se importasse e que havia pedido para ela não desistir. “Não desistir”, repetiu afastando-se com lentos passos para trás. Era um motivo contra mil outros; um motivo buscado às pressas e que talvez nem devesse existir.
Algumas pessoas a olhavam, às vezes com repugnância ou pena ou indiferença. A maioria passava direto já entretidos e ocupados demais com o próprio umbigo. Olhavam-a rapidamente, assim pra ela não perceber; porque estava suja, bêbada, drogada e sem dormir enquanto todos eram supersaudáveis com suas toneladas de CO2 nos pulmões.
Estaticamente apavorada: era um pavor trancado que só se expressava nas pupilas dilatadas por pânico e algo mais. “Olhem, isto foi o que o amor me fez” - ela pensava enquanto agradecia a cada uma daquelas pessoas por não a amarem. Juntava quebra-cabeças incompletáveis, ligando peças totalmente distintas para tentar, mais uma vez, se preencher. Catava as gotas do que ainda poderia a encantar nos cantos escondidos das pessoas: sem sucesso. Dedicava, então, todos os seus esforços aos movimentos da mão:

por favor: eu não quero mais!
alguém me ensina como é que faço
para que seja
verdadeiro
e
sincero.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

"Horríveis as cidades! Vaidades e mais vaidades... Nada de asas! Nada de poesia! Nada de alegria! Oh! Os tumultuários das ausências! Paulicéia - a grande boca de mil dentes; e os jorros dentre a língua trissulca de pus e de mais pus de distinção... Giram homens fracos, baixos, magros... Serpentinas de entes frementes a se desenrolar... Estes homens de São Paulo, Todos iguais e desiguais, Quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos, Parecem-me uns macacos, uns macacos." (O Cortejo, A Paulicéia Desvairada)